A menos de uma semana de estréia, "Tropa de Elite" já é, sem dúvida, o filme mais comentado do ano. A proliferação de cópias piratas do longa-metragem que fala do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio, o Bope, é assunto de nove em cada dez mesas de bar na cidade.

As polêmicas sobre o filme – que vão desde declarações do governador Sérgio Cabral a ações na Justiça para impedir sua exibição –, além de boatos de que o mesmo pode ser alterado, só servem para aumentar a curiosidade em torno do longa. E a ansiedade pela noite do dia 20, quando ele será exibido pela primeira vez, na abertura do Festival de Cinema do Rio.

“O que posso dizer é que esse filme que foi visto não está pronto. Podemos mexer na fotografia e na sonorização”, adianta Rodrigo Pimentel, que assina o roteiro do longa com José Padilha e Bráulio Mantovani. Com 36 anos e duas incursões pelo cinema, o ex-comandante do Bope está animado com a estréia do filme, o primeiro que participou efetivamente da produção.

“É claro que a pirataria foi prejudicial, mas nossa expectativa é que o público seja de sete a nove milhões de espectadores”, anima-se Pimentel, em entrevista exclusiva ao EGO.

REALIDADE X FICÇÃO

Foi ele que, junto com José Padilha, começou a escrever o roteiro do filme, há quatro anos. O ex-policial, que deixou o Bope em 2000, deu pitacos em todas as fases de produção, desde a escolha do elenco à preparação dos atores. “Tinha um certo receio porque todo filme policial no Brasil fica meio mambembe, acaba caricato”.

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Wagner Moura interpreta capitão Nascimento em "Tropa de Elite"

A preocupação surtiu efeito: a proximidade do filme com a realidade é tanta que Pimentel precisou convencer os que viram a fita pirata de que o longa é uma ficção. “Corrupção policial, tortura e violência são acontecimentos tão rotineiros no Rio que sugerem que a obra seja real, mas não é. É natural que as pessoas se enxerguem no filme, mas não tem absoluta relação com ninguém em particular. Eu não sou o capitão Nascimento”, diz Pimentel, referindo-se ao personagem vivido por Wagner Mourabuscar.


LABORATÓRIO

Wagner foi um dos 20 atores que fizeram o laboratório, coordenado por Fátima Toledo e Paulo Storani, ex-Bope e atual secretário de Segurança Pública de São Gonçalo. Por aproximadamente três semanas, o grupo - que incluía Caio Junqueira e André Ramiro - encarou aulas de tiro e de conduta de patrulha e passou por um treinamento (quase) tão duro quanto os do aspirante ao Bope.

Diariamente, os atores eram levados para Vargem Pequena, onde penavam sob os comandos de Storani, que coordenou, na vida real, o 9º Curso de Operações Especiais, em 1996, e hoje faz mestrado em antropologia na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Levamos os atores a um nível de exaustão muito parecido com o que os policiais têm no curso de operações especiais”, compara Pimentel.

SANÇÕES DISCIPLINARES

Storani seguiu os preceitos da etnodramaturgia, conceito elaborado pelo diretor teatral Richard Schechner e pelo antropólogo Victor Turner nas décadas de 60 e 70. Ou seja, os atores tiveram de viver a experiência dos soldados de elite da PM fluminense para desenvolver atitudes semelhantes às da tropa. Cantavam hinos da polícia, chegaram a comer no chão e, quando erravam, eram submetidos a sanções disciplinares, como um castigo dentro da água fria de um lago.

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Durante o laboratório, em Vargem Pequena, os atores passaram por aulas de tiro com policiais

“Nós dizíamos que quem não agüentasse podia sair do filme. Foi um tratamento muito rigoroso, que incluiu até, na fase final, um processo de retorno à realidade dos atores”, revela Storani, que contou com a ajuda de policiais civis e militares no treinamento. Alguns até atuaram no filme.

Um dos atores, que não teve o nome divulgado, precisou ser afastado das filmagens, de tão a sério que levou o “curso”. “Chamamos uma psicóloga e sentimos que o comportamento dele não era o esperado para um ator numa situação daquelas. Ele entrou tanto no personagem a ponto de achar que estava fazendo um treinamento do Bope mesmo”, lembra Storani.

Já Wagner Moura, que luta jiu-jítsu e boxe tailandês, chegou a dar um soco e quebrar o nariz do oficial, num limite de estresse emocional.

PERFEIÇÃO

Orgulhoso de seus pupilos, Storani conta que em uma das gravações os atores chegaram a discordar da opinião de dois consultores que estavam no set de filmagem sobre a maneira como deveria ser feita uma cena de incursão em favela. A opinião dos atores prevaleceu.

“O Padilha me ligou e disse que havia uma divergência e eu o aconselhei a deixar que os atores fizessem o que eles sabiam fazer. Uma hora depois ele me ligou e disse que eu tinha razão, que a cena tinha ficado ótima”.

Nos 90 dias de filmagem, de setembro a dezembro de 2006, as equipes circularam por cinco favelas cariocas dominadas pelo tráfico e pelas milícias. Foram elas: São José Operário, Rio das Pedras, Tavares Bastos, Prazeres e Babilônia. Nesse último, no Leme, uma van que transportava 90 armas usadas nas gravações do filme foi roubada, em novembro de 2006.

A mais nova polêmica envolvendo “Tropa de Elite” nasceu esta semana. Na terça-feira, 11, pelo menos 19 policiais, entre eles o ex-comandante do Bope Fernando Príncipe, entraram com uma ação pedindo alterações no longa. O advogado do grupo entrou com medida cautelar e pedido de liminar para que a Justiça impeça a exibição do filme do modo como está.

Para Pimentel, esta foi a forma que os policiais encontraram para se pronunciar sobre o assunto. “Eles imaginam que o longa possa causar um sectarismo entre a Polícia Militar e o Bope. Essa foi uma forma de externar uma revolta, uma angústia contra o filme”.

O ex-policial, no entanto, acredita que a corporação só tem a ganhar. “A polícia está em frangalhos em função do contingenciamento de verbas e da politização da segurança pública nos últimos 10 anos. O filme só tem potencial construtivo, é um pedido de ajuda”, acredita.

DE CENSOR A ROTEIRISTA

Marcos Serra Lima
Pimentel conheceu Padilha através de João Moreira Salles
Hoje consultor de segurança, Pimentel entrou para a polícia com 18 anos. Seu primeiro contato com o cinema foi durante a produção de “Notícias de uma Guerra Particular”. Destacado para acompanhar o depoimento dos colegas ao cineasta João Moreira Salles e a Katia Lund, de censor ele tornou-se personagem do filme. “Durante as entrevistas, eu acabei me confidenciando e eles perguntaram se eu topava ser filmado”.

O contato com Padilha foi feito através de João Moreira Salles, durante a produção de “174”, documentário sobre o seqüestro do ônibus 174 no Jardim Botânico, em 2000. Foi durante as filmagens que Pimentel, então consultor de Padilha, comentou seu interesse de fazer uma ficção sobre a polícia do Rio, baseados em relatos de amigos e na sua própria experiência no Bope. Nascia ali a idéia do “Tropa de Elite”.

Em 2005, com o roteiro do filme já em andamento, Pimentel escreveu o livro “Elite da Tropa”, cujas vendas estão em ascendência desde que começou o alvoroço sobre o longa. Para o futuro, prepara um novo livro, sobre o mesmo tema.

“Acho interessante que o brasileiro médio conheça os bastidores da polícia para entender que, em pleno século 21, policiais que fazem concurso para trabalhar na rua são cozinheiros, trabalham como mecânicos nas oficinas. Para entender que um batalhão que faz a segurança de um milhão de habitantes recebe por mês R$ 9 mil e exigir modernização da segurança pública”, dispara.

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